Ela está na chuva
- D. S. Aletris

- 28 de jan. de 2023
- 3 min de leitura
O mundo ao redor poderia não concordar, mas ela precisava se molhar e sentir um universo desaguar dentro de si.

Ela não percebeu quando a tempestade começou a se formar no seu peito, eram poucas nuvens que se acumulavam dia após dia. Continuava com sua rotina e obrigações, se achava forte e capaz de aguentar as provações que a vida trazia. O primeiro raio a cair foi com o sono e ela não entendeu. Sabia que tinha o sono leve, mas agora demorava para adormecer e acordava no meio da noite tomada por inúmeros pensamentos, que martelavam sua cabeça como se ela fosse um prego.
Quando acordava, podia ver uma nuvem em cima da sua cabeça durante o dia e buscava formas de escondê-la com estrelas, luas, sóis e um arco-íris desbotado.
As coisas que pareciam simples e prazerosas começaram a ficar pesadas. Cozinhar agora era como arrastar uma bigorna para a panela. Acompanhar as séries favoritas era como assistir a uma produção em preto e branco legendada com um chiado constante na TV. Os livros pegavam poeira enquanto ela olhava e tentava decidir o que ler, nada fazia sentido para aquele momento. Algo, definitivamente, não estava certo. Mas, ainda assim, ela deixou que as nuvens acumulassem em seu peito.
Quando o primeiro raio cruzou o céu, ela se assustou. Correu buscar abrigo em um mundo de fantasia onde podia passar horas sem pensar no que acabava de ver. Esse mundo que criava a deixava feliz, as músicas que escolhia também, mas algumas eram como tapas em seu rosto, que a despertavam de tempos em tempos. Uma delas dizia: “você fala da dor como se estivesse tudo bem, mas eu sei que você sente como se um pedaço de você estivesse morto por dentro”. Quando essa tocava, ela parava e ouvia. E chorava.
As pequenas nuvens que se acumulavam se tornaram pesadas e cinzentas. Suas estrelas, luas, sóis e arco-íris já não davam mais conta de cobri-las. Seu mundo de fantasia ainda trazia conforto e alguma alegria, mas também já não era suficiente. O mundo real gritava por seu nome com um megafone. Ela sempre se orgulhou da sua capacidade de adaptação e aceitação, mas agora se sentia confusa e com medo. Muito medo.
O primeiro trovão ecoou pouco tempo depois avisando que não tinha como escapar do que estava por vir. E os sinais estavam lá: ela já não conseguia se ver no espelho a sua frente. Sentia que sua vida era um grande salão onde ela permitiu que todos dançassem no centro enquanto observava no canto com um copo de chá gelado nas mãos. Ela também queria dançar. E resgatar esse desejo era enfrentar uma jornada de dor e honestidade consigo mesma.
Então, um dia ela acordou e sentiu a primeira gota de chuva na sua cabeça. Olhou pra cima e, sentindo que fracassou, chorou mais uma vez. Todos os “sim” que disse na vida quando queria dizer “não” caiam gota por gota. Não queria expulsar ninguém do salão, só queria dançar junto. Mas, principalmente, ela queria dançar no centro daquele salão. Afinal, tudo ali era seu. Dos balões da decoração ao chão quadriculado. Para entender isso, precisou desaguar.
Existe um efeito que não podemos controlar quando desaguamos. Inevitavelmente magoamos pessoas ao redor, com uma chuva torrencial elas acabam se molhando também. E você não pode escolher por elas, porém sempre existem opções: podem aceitar se molhar junto com você e caminhar, podem abrir um guarda-chuva e esperar, podem observar de uma marquise distante, podem se abrigar em um cinema e ignorar. O que não podem é impedir que você sinta a chuva. A chuva era parte dela e estava ali para despertá-la de um sono profundo. Era na chuva que ela daria os primeiros passos ao colocar uma galocha de bolinhas e decidir que precisava se molhar.
E ela dançaria na chuva.
“There's a time for the good in life
A time to kill the pain in life
Dream about the Sun, you queen of rain”
Roxette – Queen of Rain

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